O POBRE DE DIREITA Como suposto traidor de classe

🅱️LOG SEM 🅰️RRUDEI🅾️

A lógica por trás dessas expressões é bastante curiosa: quem pertence à classe trabalhadora deveria, necessariamente, identificar-se com a esquerda. Caso contrário, estaria votando contra os próprios interesses. É como se a condição econômica de alguém determinasse aquilo em que essa pessoa deve acreditar.
Da mesma forma, esse raciocínio aparece em determinadas manifestações da militância identitária. Negros conservadores, mulheres contrárias ao feminismo e homossexuais de direita frequentemente são tratados como se houvessem traído suas próprias comunidades. Com isso, a identidade, que deveria ser uma característica individual, transforma-se numa espécie de obrigação política.
De onde vem a ideia de que pobre não pode ser de direita
Essa forma de pensar possui antecedentes bastante antigos. Karl Marx acreditava que a história humana se desenvolvia a partir das condições econômicas e dos conflitos entre classes sociais. Para ele, o capitalismo produziria suas próprias contradições. Consequentemente, elas conduziriam à vitória do proletariado e, finalmente, à superação da sociedade de classes.
Havia nessa concepção uma espécie de profecia histórica. Assim como o cristianismo anuncia a segunda vinda de Jesus, determinadas interpretações do marxismo anunciam o comunismo como destino inevitável. No entanto, há uma diferença. Enquanto a religião fundamenta sua promessa na fé, o marxismo reivindica a autoridade da ciência para sua previsão.
Lenin e a consciência levada de fora ao operário
Entretanto, surgiu um problema: os trabalhadores não necessariamente demonstravam a consciência revolucionária que a teoria lhes atribuía. Lenin, então, defendeu que a consciência socialista precisaria ser introduzida no movimento operário pela organização revolucionária. Em outras palavras, os trabalhadores deveriam ser conduzidos à compreensão de seus supostos interesses históricos.
Laclau e a construção política da vontade popular
Décadas depois, o argentino Ernesto Laclau, um dos principais nomes do pós-marxismo, avançou numa direção diferente. Ele abandonou a ideia de um destino histórico inevitável. Por isso, passou a atribuir à atuação política um papel decisivo na construção das identidades coletivas. Nesse sentido, o representante não apenas expressaria a vontade daqueles que representa, mas também participaria da formação dessa própria vontade.
A transformação é reveladora. Aquilo que antes parecia uma consequência necessária da história passa a depender da construção política de uma coletividade. Dessa forma, a profecia dá lugar à ação deliberada.
Quem decide o que o pobre de direita deve pensar
Naturalmente, não é preciso imaginar que quem chama alguém de “pobre de direita” tenha lido Marx, Lenin ou Laclau. Na verdade, a maioria dessas manifestações ocorre muito longe dos debates acadêmicos. Ainda assim, é difícil não perceber a semelhança entre essas teorias e a prática militante. Em ambas, existe a pretensão de determinar quais opiniões seriam legítimas para cada grupo social.
O problema moral aparece quando alguém acredita conhecer os verdadeiros interesses de outra pessoa melhor do que ela própria. Afinal, por que um trabalhador não poderia defender a redução de impostos, a liberdade econômica ou o direito de empreender? Por que uma mulher deveria aderir ao feminismo? E por que um negro ou um homossexual estaria obrigado a apoiar determinadas propostas políticas?
O que não define o voto
Não existe contradição alguma em alguém desejar melhores condições de vida e, simultaneamente, rejeitar as soluções oferecidas pela esquerda. A condição econômica, a cor da pele e a sexualidade não concedem a partidos políticos qualquer direito de representação automática.
O trabalhador não é propriedade de uma classe dirigente. A mulher não pertence ao feminismo e o negro não deve fidelidade a um movimento político. E ninguém precisa justificar suas convicções perante aqueles que se apresentam como intérpretes de seus verdadeiros interesses.
Uma democracia pressupõe justamente a possibilidade de que pessoas submetidas às mesmas circunstâncias cheguem, livremente, a conclusões diferentes. No fim, a maior contradição dessa mentalidade é bastante simples. Em nome da emancipação dos indivíduos, pretende-se negar-lhes a liberdade de pensar por si mesmos.
E uma emancipação que exige obediência não é emancipação. É apenas outra forma de submissão.
Dr Marcos K Niquellate
Blog Sem ARRUDEIO



